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Diario de uma emigrante

Um blog, de auto-ajuda, criado para partilhar a minha experiencia de vida e o meu dia-a-dia. Contado na primeira pessoa, enquanto emigrante, na Republica da Irlanda, desde 2005.



Sexta-feira, 25.04.14

Uma Visao ou Um Futuro...

Ha uns anos tive uma visao, do que eu julgo ser o dia da minha partida.

Nao, nao foi um sonho.

Pode e nao vir a acontecer dessa forma.

Consigo lembrar-me do quarto minusculo e da cor de pessego das paredes.

Da janela pequenina, que identifico como sendo de uma casa antiga.

Um lar creio.

A minha cama (de solteiro) estava no centro do quarto.

Os lencois eram brancos. Tal qual como adoro.

O guarda-vestidos, ao meu lado direito, ao fundo do quarto, a fazer canto.

A janela a minha direita.

A porta bem na frente, da minha cama. Bem aos meus pes.

Eu estava deitada, claro.

Lembro-me de nao conseguir falar, mas consigo lembrar-me perfeitamente da sensacao e ainda sentir o meu coracao a encher-se de tanto amor e tanta felicidade.

Estavam todos a volta da minha cama.

Nao consigo me lembrar de nenhuma cara.

Mas lembro-me de saber bem que eram os meus filhos, as minhas noras e os meus netos.

O quarto minusculo estava cheio de gente.

Da minha gente. Dos meus amados. Dos meus amores.

Tinha-os a todos no coracao de forma igual.

Eaxatamente igual.

Nao me lembro de sentir, que la estava o amor da minha vida.

So me lembro de me sentir a rir, porque estava feliz, porque estavam todos bem e eu ia reve-lo.

E embora soubesse que ia ter saudades deles, sentia que eu  finalmente ia poder descansar.

Percebi nesse momento que eu tinha criado aquilo tudo.

A minha familia.

Percebi naquele segundo que a minha missao aqui na terra tinha sido exatamente essa.

Criado uma familia que transbordava amor.

Estavam la todos em harmonia e numa cumplicidade inacreditaveis.

Senti que ja podia ir em paz.

Senti tudo isto e eu so ainda tinha o JP...

Nao sei se foi a maneira que Deus me disse, ok podes seguir os teus sonhos. Estas pronta!!!

Nao sei se vai ser realmente assim...

Mas seja como for, para mim, o importante e que esta visao, fez-me acreditar que eu podia e devia seguir os meus sonhos.

Que devia de ter mais os 2 filhos que eu e o maridao, sempre quisemos.

Essa minha visao marcou-me profundamente.

E penso imensas vezes nela.

E nas inumeras mensagens que consigo tirar dela.

Uma delas e esta coisa chamada de emigracao.

Lembro-me da minha mae que tem filhos (e netos!) e esta sozinha, com o meu pai de coracao, porque ambos os filhos estao emigrados.

Lembro-me da minha tia que tem uma filha e dois netos.

E que luta contra 2 cancros.

Tambem ela sozinha com o marido, devido a emigracao.

Lembro-me inevitavelmente que se lhes acontecer alguma coisa de repente, partirao sozinhas, sem filhos, sem netos, sem despedidas.

E isto sim....e o que temo.

Nao quero estar nesta vida sabendo que se tiver tempo, nao me posso despedir dos que amo, porque estao demasiado longe de mim.

Nao quero perder os meus filhos para a emigracao.

Perde-los para Deus foi inevitavel. E sem despedidas.

Para a emigracao nao!!!

Nao devia ser...

Por isso, a minha maneira, fiz questao de me despedir do meu tio, que faleceu ha umas semanas.

Um ano antes, nas minhas ferias fui ve-lo, depois de me terem dito que ele esteve quase para partir.

Em pleno IPO, em plena paragem cardiaca, depois de uma sessao de quimio ou radioterapia.

Que lutou anos e anos contra uma serie de cancros.

Nesta familia, quando eles (cancros) batem a porta, nao entra um, nada disso, entram logo uns poucos.

Talvez por tudo isto, acho importante nos despedirmos das pessoas.

Nunca o maridao sai de casa sem se despedir.

E quando chega, cumprimenta-nos sempre tambem.

Nao e uma questao de boa educacao ou nao.

E mais um sinal de... cheguei!!!

Estou aqui!!!

Nunca o JP vai pra cama sem se despedir.

Chamem-me de doida, ok....

Mas a verdade e que penso imenso na minha mae e na minha tia.

Especialmente esta semana em que ela foi operada novamente.

E quanto mais me acostumo a ideia de ficar ca para sempre, mais penso na minha mae.

No meu pai e na minha tia.

Na minha prima.

Tambem ela ja com a vida dela, no pais que a recebeu, ha uns 20 anos atras.

Mas quando se emigra, nao se pensa nestas coisas.

Vai-se somente a procura de uma vida melhor... economicamente falando.

Vive-se em solidao muito tempo.

E como dizia o poeta: Primeiro estranha-se e depois entranha-se.

E neste momento, posso-vos dizer, que ja me estou a habituar a este pais.

Finalmente a minha vida...

E .....a Ilha.

Ir para Portugal, sim.....nas ferias.

 

PS- Sabem o que continuo a achar fenomenal?

E que nao me lembro se tinha um carro ou dois ou as marcas deles.

Nao me lembro de nada material, somente, o que valia e vale mesmo a pena, neste mundo.

As pessoas. A familia. O amor.

Beijinhos de Mim.

 

 

 

 

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por Diario de uma emigrante às 13:46


6 comentários

De Diario de uma emigrante a 25.04.2014 às 17:39

Eu tambem...
E mesmo que nao consiga transmitir isso da maneira como mereces, garanto-te que a minha admiracao por ti e genuina e tenho pena que acabe por saberes mais de mim, do que eu de ti....
Temos que tirar umas horinhas nas ferias para pormos a conversa em dia.
Bjs querida.

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