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Diario de uma emigrante

Um blog, de auto-ajuda, criado para partilhar a minha experiencia de vida e o meu dia-a-dia. Contado na primeira pessoa, enquanto emigrante, na Republica da Irlanda, desde 2005.



Quinta-feira, 22.08.13

Esperando o dia de Hoje.

Pensei e ponderei nao escrever hoje. Ponderei se iria falar sobre o dia de hoje. Ponderei sobre a continuacao deste blog. Quanto ao blog, ainda nao me decidi. Tenho que pesar os pros e os contras. E so depois decidir. Nao tenho ideia ao certo de quantas pessoas o leem. Nao sei mais se o continuo a fazer por mim, apenas. Nao sei. Simplesmente ja nao sei, se valera a pena so por mim. Mas decidi esperar uns dias e tentar perceber.

Admito a possibilidade, de ter sido o facto, de infelizmente, o dia de hoje ter chegado. 

Ponderei se deveria partilhar aqui alguns acontecimentos recentes e entre eles... o dia de Hoje.

Quando algo me afecta verdadeiramente, no dia a dia, fico no dilema de partilhar aqui ou nao. A questao da minha privacidade ergue-se. Mas acima de tudo a dos meu filhos e a do meu marido. Mas afinal o que e isso de privacidade, quando quero dizer a tantos portugueses, as dificuldades e as facilidades do que e ser emigrante, para mim.

Vejo-me com imensas dificuldades de partilhar ambas. As dificuldades e as facilidades. As coisas boas e as menos boas.

Ha coisas inacreditavelmente mas que ja me aconteceram e outras inacreditavelmente boas.

Ha quase 6 anos que estou a morar nesta Vila. Ha quase 6 anos que esperava pelo dia de hoje.

Ele chegou...hoje.

Tinha ja mecanizado o que fazer. Vezes e vezes sem conta. O medo era tanto, que o tentei mecanizar. Tinha era receio de bloquear. Mas nao. Nao bloquiei.

Tenho 3 criancas em casa, as probabilidades deste dia chegarem eram enormes. 

O Rafael, as 8 horas da manha, caiu e abriu a cabeca. Rachou a cabeca, como queiram.

O maridao que tem varios cursos de primeiros socorros e esta constantemente a actualiza-lo sabe da parte pratica. Mas, claro, e o filho dele, e vi-o ficar bastante nervoso. Eu nao. Fiquei receosa, porque percebi imediatamente que ''aquele'' dia tinha chegado. Mas muito calma. Agi com uma extrema calma, ate para minha surpresa.

Tenho a certeza que o maridao reparou, apesar de nem sequer, ter comentado. Afinal, tinha-me preparado para o dia de hoje.

Precisamos de duas toalhas para estancar o sangue. Precebemos, em poucos minutos, que se estivessemos em Portugal, ele precisaria de pontos ou daqueles pensos que vieram substituir os pontos. Apesar de nao termos a certeza se sao usados na cabeca, devido ao cabelo.

Percebemos que nao era aquele arranhao normal de uma queda em que sangra superficialmente. Tinha um aspecto feio e o sangue estava a custar estancar.

Estamos a mais de 70 km do Hospital de Cork. Tambem ha povoacoes assim em Portugal. Temos hospitais mais perto, mas nao tem urgencias.

O medico particular (que tem enfermeiras a tempo inteiro), so abre, as 9.30 horas.

Temos que ligar para o reforco. Explicar a situacao esperar que uma enfermeira nos ligue de volta e so depois decida o que fazer.

Ir la com o bebe de 18 meses ou eles virem ca se fosse um caso extremo.

Mesmo assim estamos a falar em 25 minutos de carro. Mais ou menos 30 km.

Ja tinha tudo mecanizado. Mesmo o ligar para uma amiga que ja teve 6 filhos. E pedir a opiniao dela no ferimento.

Ela nao estava. Tinha ido ao pao. Mas o marido fez questao de perguntar de eu precisava de alguma coisa e que ela entao me ligaria, assim que chegasse. Ela nao ligou. Ela veio ca. Alem de amiga (percebi que e uma amiga, com a minha amiga S., quando me ajudou a perceber que ha amigos diversos) e uma vizinha. Em 5 minutos estava aqui.

Nao tinha a nocao que o tempo tinha passado. Pensava que o Rafael ainda era bebe de colo.

Viu-o e disse-nos logo que nao acreditava que fosse muito fundo. Aconselhou-me a esperar pelas 9.30 e a ligar ao medico dele, afinal o sangue ja estava quase estancado. Disse-me para nao o deixar adormecer. Isso e que nao.

Quando a vi entrar chorei. Nao por estar nervosa, mas pela atitude dela, de ter ca vindo. Essa parte, nao estava na minha mecanizacao. A parte em que os sentimentos irracionais entram. A parte em que afinal, tenho alguem com quem contar nas horas de aflicao. Afinal tenho amigos na Irlanda.

Afinal, parece que sou eu, que tenho andada enganada, estes anos todos, sobre o que sao os amigos.

Obrigada a ti amiga, por me teres feito perceber a tempo, do dia de hoje, que ha amigos de varios tipos.

Liguei ao medico logo as 9.00 horas. Sabia que a recepcionista ja la estava. Expliquei-lhe e ela falou com ele. Pelo telemovel ou pessoalmente nao sei. Mas mandou-me entao ir logo la. E fui, claro.

O medico viu-o e encostou-se ao balcao. Com uma cara de quem ja deixava adivinhar o que iria dizer. Ja o conheco bem.

Ele nao sabia se eu iria gostar do que ele tinha para dizer.

Diga la doutor- disse eu.

Explicou-me que ele tinha um corte, um pouco fundo. Se tivesse 4 anos que seria facil a resolucao. Mas que com 18 meses...se ele tentasse colocar um penso teriamos a Terceira Guerra Mundial. Se tentassemos coser, iriamos traumatiza-lo e ter a Quarta Guerra Mundial.

''Vamos deixar curar assim.''- esta bem? Sempre a desinfectar como ja tinhamos feito em casa.

Concordei prontamente, ate porque eu nao queria que ele levasse pontos. So causam problemas. Infecccoes, etc.

Mas eu precisava que um medico me confirmasse o que eu, nas minhas entranhas de mae, ja sabia. E ele disse-me tudo o que eu queria ouvir.

Ja lhe tinha dado uma colher de paracetemol, para as dores, antes de sair de casa.

Percebi depois, ja em casa, que por mais que nos preparemos para uma situacao, nao deixa de existirem situacoes e momentos de surpesa. Defenitivamente, o facto de me ter preparado, para o dia em que um dos meus filhos ''rachasse a cabeca'', evitou o meu panico e deu-me a serenidade necessaria, para lidar com uma situacao nova de stress, natural e legitimo. Sobretudo para uma pessoa com a minha personalidade. Que de serena, tem muito pouco.

Agora ele dorme. Como e normal, todos os dias, por volta desta hora.

Beijinhos de Mim.

 

 

 

 

 

 

 

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por Diario de uma emigrante às 12:55


3 comentários

De Xana a 26.08.2013 às 12:11

OI,

NÃO CONSEGUI NÃO ESCREVER...

Em primeiro lugar para te dizer que escreves muito bem, não é fácil encontrar alguém que consiga transmitir o que sente...
Não somos amigas, e por isso sinto que de alguma forma não tenho o direito de opinar sobre a tua decisão de manter o blog.

Mas aqui só queria dizer que eu LEIO!

De Anónimo a 22.08.2013 às 15:58

Amiga. ...não entendo porque o ponderares nao continuares o blog. ...pensei que te sentiste culpada..por estares no momento que o rafael se magoou.....mas nao....por isso nao percebo...enfim....olha...eu gosto do teu blog....e leio sempre o que escreves....e adoro...acho que este te blog...tem te ajudado e ajudado is outros. ..mas a decisão so a ti pertence. ....em relação a tua vizinha que veio te ajudar.....eu faria o mesmo...ate por uma conhecida...nao era preciso sermos íntimas...é natural...ajudar alguém numa aflição ...mas quem sabe...como tu dizes...pode ate uma amiga....olha...e ve as coisas pelo lado positivo. ...se em 14 anos e 3 filhos. ..foi o primeiro grande susto....da gracas a deus...Hihihih. ..agora ja passou...nao penses mais nisso....bjinhos. ..linda

De Anónimo a 22.08.2013 às 15:18

Parabéns... estiveste muito bem, amiga.
Se me permites, fazes mal em terminar o blog, seja lido por muita gente ou só por ti. Se só tu o leres, faz-te bem porque ao escrever colocas as ideias no sítio. Se mais alguém ler, não duvides que estás a ajudar, mesmo que seja nas pequenas coisas, mesmo que seja só com o exemplo.
Não gosto de viver a pensar no pior, bem pelo contrário. Acho que o Universo conspira para nos trazer aquilo que mais interiorizamos, bom ou mau. Por isso é importante contar sempre com o melhor. No entanto, podemos e devemos estar preparados para tudo. A tua preocupação com este caso é muito legítima, até porque nós temos urgências a 5 minutos de casa, o mesmo não podes tu dizer e o desespero de qualquer pessoa aumenta.
Se alguma vez passar pelo mesmo, vou ter o teu exemplo, Carlinha, infelizmente..... mas já aconteceu e já passou. Agora é paciência até curar por completo.
Um beijo enorme para ti e para o maridão... e um beijo especial para o Rafael, na testa, bem no meio (diz "faz" favor que é meu, ok?)
Paula

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